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  • MARCUS VINICIUS DE FREITAS

A Igreja Emergente


Introdução

Nos últimos cem anos, temos visto o florescer de diversas linhas de pensamento teológico, as quais têm proposto o questionamento a muito sobre o que a igreja, até o início do século XX, costumava praticar e pensar. Estas diferentes linhas de pensamento, juntamente com seus principais expoentes, têm sido as grandes responsáveis pelo quadro de abundante diversidade no evangelicalismo atual e têm sido conhecidas como “teologia contemporânea”, ou, como preferem Miller e Grenz, “teologias contemporâneas”, tendo em vista a enorme teia de ramificações pertencentes a estas correntes do pensamento teológico.1

Dentre as inúmeras teologias contemporâneas, algo que tem gerado bastante discussão no cenário teológico atual é o movimento da chamada “igreja emergente”. Ao contrário, porém, do que ocorre com a maioria dos grandes movimentos teológicos dos últimos cem anos, a igreja emergente não pode ser basicamente associada a um só pensador.2 E isso torna seu estudo ainda mais difícil de ser realizado. Tentaremos, então, apresentar uma breve definição deste movimento, suas características básicas e suas formas de culto, ajudando-nos a compreendê-lo um pouco melhor, ainda que em linhas gerais.


O que é a igreja emergente?

Apesar de bastante difícil de ser definida, uma vez que compreende uma complexa rede de indivíduos, pastores, teólogos, igrejas, dentre outros, a igreja emergente é apresentada por seus adeptos como uma “conversação”, muito mais do que como um movimento; eles afirmam ser ela um estado de mente, um modo de pensar, e não um modelo.3 Igrejas emergentes são comunidades que praticam o caminho de Jesus, inseridas nas culturas pós-modernas e creem que mudanças na cultura sinalizam que há uma nova igreja emergindo. E, por causa disso, os líderes cristãos devem se adaptar a esta igreja emergente.4

O termo “emergente” foi usado pela primeira vez por Karen Ward (Igreja dos Apóstolos, Seatle), quando criou um site na internet, emergingchurch.org, que não mais existe.5 Outros nomes, então, como Brian McLaren e Dan Kimball, passaram a surgir como vozes do movimento. Este último, Kimball, chegou a afirmar que a igreja precisava aprender a falar uma nova linguagem, já que uma mudança nos estilos de culto apenas, não era mais suficiente. Como consequência deste tipo de pensamento, tanto a metodologia quanto a teologia, a forma e o conteúdo, têm mudado,6 e isto é o que tem sido questionado por aqueles que se opõem a tais igrejas.

Podemos, portanto, (tentar) definir a igreja emergente como uma reação ao cristianismo da era moderna, considerando que tal cristianismo se tornou irrelevante para a geração contemporânea, o que gerou este movimento de reação à igreja da modernidade.7


A igreja emergente e suas principais características

Apesar de não haver um padrão de “igreja emergente”, de um jeito ou de outro, todas elas se entendem como emergindo para a cultura pós-moderna. Eles veem nesta cultura uma oportunidade de fazer com que o Evangelho faça novamente sentido à sociedade. Para os adeptos da igreja emergente, a forma de ser da igreja evangélica tradicional das últimas décadas do século XX é cativa dos conceitos de absolutismo da era moderna. O movimento emergente veio, portanto, trazer a liberdade necessária para um cristianismo relevante a seu tempo. E é por isso também que este movimento é bastante avesso ao absolutismo e contrário a qualquer forma de pensar, que admita o conceito de verdade absoluta.8 Há um enorme relativismo e pluralismo filosófico.

Contudo, temos nisto, grande problema, uma vez que compreendemos viver baseados numa Verdade Absoluta; a Escritura é a Verdade Absoluta (João 17.17). Por causa deste modo de pensar, há também na igreja emergente um forte espírito de ecumenismo.9 Ao mergulharem em ricas tradições da herança cristã, seus adeptos esperam revitalizar e aprofundar a espiritualidade dos cristãos contemporâneos. McLaren, por exemplo, propõe uma procura por caminhos à frente para a fé cristã, que olham para trás ao mesmo tempo.10 Eles também desejam transcender impasses teológicos da cristandade moderna, de maneira a encontrar um

“terceiro caminho”, como dizem, ao desconstruir dualismos modernos. 11

Desse modo, podemos entender a igreja emergente como um grande esforço de contextualização do Evangelho, em certo tom de protesto contra o evangelicalismo ultrapassado, assim visto por eles, de maneira que, em todas as suas ações, a igreja se aproxime cada vez mais do homem pós-moderno em suas práticas rotineiras, em sua visão de mundo e até mesmo em sua maneira de pensar e crer.


Os cultos na igreja emergente

A experiência com a adoração emergente começa com um aspecto diferente da maioria dos cultos contemporâneos, já que não está focada naquilo que as pessoas sentem ser suas necessidades, e sim com o que Deus é, com aquilo que elas são e com o que foram criadas para ser. Na opinião dos líderes emergentes, há grande diferença entre os consumidores de religião, que buscam satisfazer suas necessidades e adoradores em desenvolvimento, que procuram participar ativamente da história de Deus e sua contínua atividade. Há o interesse em posicionar-se na saga redentora contínua de Deus, como Seus seguidores, limitados e fragmentados, seguidores da narrativa bíblica, conhecendo e sendo conhecidos.12

Pensando nisso, tudo o que envolve o culto, desde o ambiente às ações, é amplamente envolvido por esta tônica pós-moderna e experiencial. Há muito mais simbolismo do que antes (com cruzes, velas, etc.) e grande ênfase no aspecto visual. Todo o layout do ambiente pode ser diferente e com a possibilidade de diferentes grupos envolvidos em diferentes atividades ao mesmo tempo. Há apresentações teatrais (e.g. mímicas), recitações em conjunto, projeções de imagens estáticas e vídeos, desenhos feitos na hora, como forma de expressão, dentre outras formas de arte e envolvimento experimental.

Em vários ministérios emergentes, há o desejo de, semanalmente, se criar uma adoração litúrgica, envolvendo os aspectos de Criação, Queda e Redenção, procurando corrigir aquilo que consideram um grande desequilíbrio na igreja contemporânea, que rejeita qualquer coisa considerada velha, antiga.13

Nas igrejas emergentes, é possível haver um culto inteiro sem um momento de pregação das Escrituras, já que, para eles, o sermão é apenas uma parte do ajuntamento de adoração. Logo, a mensagem da Bíblia pode ser passada de diferentes formas: através de uma mistura de palavras, artes visuais, silêncio e testemunho. O pregador é apenas um motivador que incentiva a todos a buscarem o aprendizado da Palavra, ao longo da semana.14


Reflexões sobre a igreja emergente

Analisando tudo o que foi, até o momento exposto, não devemos apenas afirmar ser o movimento emergente algo totalmente negativo, espúrio e completamente desprovido de aspectos, de algum modo, positivos. Não é esta nossa intenção. Todavia, é preciso pensar um pouco acerca do que os emergentes têm proposto e do que podemos/devemos ou não aproveitar.

Primeiramente, algo que podemos considerar como positivo no pensamento da igreja emergente é o fato de buscarem falar uma linguagem que alcance o homem da pós-modernidade. Não era isto que Paulo e os demais apóstolos, desde o princípio da igreja, procuraram fazer? O próprio Paulo afirma que se fez “judeu para com os judeus, (...) gentio para com os gentios, (...) tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns” (1 Coríntios 9.20-22). Por si só, tal concepção é extremamente válida e digna de ser seguida. É muito importante falarmos uma linguagem que seja compreendida por aqueles que vivem em nosso tempo.

Além disso, o variado uso de tecnologias e de diferentes formas de artes, recursos e até mesmo liturgias diversas é também, a princípio, bastante positivo. Por que não nos valermos dos mais diferentes recursos que o Senhor nos permitiu ter por meio da criatividade e inventividade humana? Afinal de contas, todas as artes foram criadas para glorificá-Lo. E é bem verdade que, por temer uma flexibilização da essência do Evangelho, muitas igrejas tradicionais e/ou ligadas à modernidade, de um jeito ou de outro, evitam inovar, criar, recriar, expressar e apresentar diante de Deus e Seu povo o máximo de seu potencial, o melhor que poderiam produzir, uma vez que tantos recursos possuímos hoje.

Contudo, há limites muito bem estabelecidos pela Escritura e que não devem ser transpostos, nesta busca por alcançar o homem de nosso tempo. Dentre elas, podemos falar, por exemplo, da leitura e exposição das Escrituras. O apóstolo Paulo é bastante claro, ao escrever a Timóteo, dizendo que se aplique à leitura pública das Escrituras e que pregue a Palavra, em tempo e fora de tempo (cf. 1 Timóteo 4.13 e 2 Timóteo 4.2). É preciso, então, bastante cuidado para que, ao imergir na cultura, a igreja não esteja mergulhando ou afundando a si mesma em águas profundas, de esquecimento dos princípios atemporais da Palavra de Deus, uma vez que, ao buscar viver a cultura atual, questões como o divórcio, o papel da mulher e até mesmo a homossexualidade podem ser enxergadas não mais pelo prisma bíblico, e sim por aquilo que se entende ser a verdade ou as diferentes verdades do mundo pós-moderno. Outro problema das igrejas emergentes está no ardor ecumênico que praticam. É importante, sim, que sempre nos lembremos de que somos todos (os que confessam Jesus como Senhor) irmãos pelo sangue de Cristo. Entretanto, na busca de a todos alcançar e de evitar as temidas divisões por pensamentos diferentes, a profundidade do Evangelho é sacrificada, dando lugar a uma teologia rasa e superficial, que influencia não simplesmente discussões acadêmicas, mas que também afeta o viver prático, que a sadia profundidade teológica deve consigo trazer.

Em suma, bem que podemos sintetizar tudo o que aqui foi apresentado como: forma x essência. Por que, porém, tal conflito dualista se faz necessário? Por que não entender aquilo que nos ensina a Escritura, sabendo que a sua essência é (e deve ser assim vista) eterna e imutável? A essência do Evangelho e todos os princípios apresentados pela Palavra de Deus devem ser sempre mantidos, independente de modelos, liturgias, formatos, recursos e manifestações artísticas. A forma, por sua vez, inevitavelmente será mudada, uma vez que mudam as gerações com o passar do tempo. Se as roupas, veículos, construções e até mesmo o que vestimos (dentro do aprovado pela Escritura, obviamente) muda, é natural que nossos atos de expressão a Deus e nossa comunicação com as pessoas ao nosso redor irão também mudar.

Entretanto, o que deve permanecer sempre firme em nossa mente é o fato de que passarão os céus e a Terra, mas as palavras do Senhor jamais passarão (Isaías 40.6-8). Logo, resta-nos o desejo imenso de sempre preservar a Palavra acima de tudo, sejam modelos, concepções, pensamentos, emergentes ou não, buscando viver aquilo que o Senhor nos instituiu por Sua Palavra.



1 MILLER, 2011, p. 11-12. 2 FRANKLIN, 2008, p. 1. 3 KIMBALL, 2003, p. 14-15. 4 CARSON, 2005, p. 11-18. 5 MEISTER, 2006, p. 97. 6 BADER-SAYE, 2006, p. 13. 7 MEISTER, 2006, p. 100. 8 MEISTER, 2006, p. 103. 9 FRANKLIN, 2008, p. 7. 10 McLAREN, 2006, p. 18. 11 FRANKLIN, 2008, p. 8. 12 MORGENTHALER, in “Adoração ou Show”, ed. Paul Basden, 2004, p. 231. 13 Idem, p. 234. 14 CARSON, 2005, p. 11-18.

BIBLIOGRAFIA
  • Bader-Saye, Scott. “Improvising Church”: an introductions to the emerging church

  • conversation. International journal for the Study of the Christian Church, 2006.

  • Carson, D.A. Becoming conversant with the new church: understanding a movement and its implications. Grand Rapids: Zondervan, 2005.

  • Franklin, Patrick S. “John Wesley in Conversation with The Emerging Church”. McMaster Divinity College, 2008.

  • Kimball, Dan. The Emerging Church: Vintage Christianity for New Generation. Grand Rapids: Zondervan, 2003.

  • Meister, Mauro. Igreja Emergente, a Igreja do Pós-Modernismo? Uma avaliação provisória. Fides Reformata, n. 1, 2006, p. 95-112.

  • Miller, Ed. L. “Teologias Contemporâneas”. São Paulo: Vida Nova, 2011.

  • Morgenthaler, Sally. “Adoração Emergente”. Adoração ou Show? Críticas e defesas de seis estilos de culto. São Paulo: Editora Vida, 2006.

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