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  • pedroamaral34

Formação Pastoral na Igreja Local – Argumento Histórico

Por Jeremiah Davidson

Em um artigo anterior, argumentei que a Bíblia apoia um modelo baseado na igreja para a formação pastoral. Neste artigo, a atenção se volta para a história da igreja.

Enquanto a Bíblia é imutável, a igreja luta com a aplicação de sua verdade em um mundo em constante mudança. Ao longo da história, este tem sido um exercício que requer sabedoria e discernimento. No que diz respeito à formação pastoral, como acontece com muitas questões práticas que a igreja enfrenta, sugerir que há um único modelo bíblico é excessivamente simplista. Há princípios inegociáveis, mas há espaço para flexibilidade na aplicação mais sábia desses princípios em um determinado contexto. Por essa razão, a história da igreja pode fornecer estudos de casos sobre como homens e mulheres piedosos têm procurado aplicar fielmente a verdade bíblica à vida da igreja.

Como, então, a igreja preparou pastores?

Não havia seminários (instituições teológicas dedicadas à preparação de novos clérigos) durante os primeiros 15 séculos da Igreja Cristã, e foi apenas no século XVI que, tanto católicos quanto protestantes, começaram a exigir estudos formais como pré-requisito para a ordenação¹. As primeiras escolas formais desenvolvidas pela Igreja foram para o catecumenato, a fim de ensinar a sã doutrina aos novos convertidos. A escola de Alexandria é um exemplo famoso. Outros contextos para o estudo teológico se desenvolveram ao longo dos séculos, como as escolas monásticas e catedrais da Idade Média - e, eventualmente, universidades. O clero, é claro, estudou a Bíblia e a teologia nesses contextos.No entanto, as escolas não tinham programas projetados para a formação pastoral.

A relação entre estudos teológicos e ministério pastoral aparentemente não foi tão bem definida nos primeiros séculos da história da igreja. Alguns pastores, como Agostinho e Ambrósio, foram despertados para a necessidade de estudos mais profundos e sistemáticos da teologia ao entrar no pastorado. As exigências do ministério da Palavra e a responsabilidade pela sã doutrina os compeliram.

Muitos observaram nos escritos de Agostinho seu desenvolvimento a partir de raízes no neo-platonismo em direção a uma teologia mais bíblica ao longo do tempo, certamente devido à sua compreensão aprofundada das Escrituras.

No entanto, não devemos concluir que todos os pastores da igreja primitiva eram simplesmente autodidatas. De fato, existem exemplos notáveis de homens empurrados para o ministério sem qualquer preparação, às vezes contra sua própria vontade. No entanto, há evidências de um processo muito mais intencional de formação pastoral ocorrendo nas igrejas. Um trecho de uma carta do Bispo Cipriano do século III nos dá uma rara janela para a formação pastoral na antiga Igreja:

Saibam, portanto, que ordenei Saturo como leitor, e Optato como confessor, ambos dos quais, estávamos preparando para fazer parte do clero, desde que confiamos a Saturo mais que uma vez a leitura na Páscoa, e mais tarde, como examinamos cuidadosamente aqueles que deveriam ser os leitores e os presbíteros de ensino, ordenamos Optato como leitor para servir entre aqueles que instruem catecúmenos, e temos examinado todas as qualidades que devem habitar naqueles que estão treinando para o clero. ²

Aqui vemos o funcionamento do que poderia ser chamado de uma residência de aprendizagem ou formação pastoral, em que dois homens, Saturo e Optato, estão sendo preparados para o clero (para serem presbíteros), responsabilidades menores, embora importantes, na igreja foram confiadas a eles (“leitor” e “confessor”) enquanto estavam sendo acompanhados por líderes da igreja que estavam especialmente atentos às qualidades necessárias para servir como pastores. Este modelo segue em termos gerais o padrão estabelecido nas epístolas do Novo Testamento. Em um artigo anterior, esse padrão foi descrito da seguinte forma:

  1. Identificação pelo(s) presbítero(s) ativo(s) de homens espiritualmente maduros que desejam servir como presbíteros e que possuem os dons e habilidades necessários (1Tm. 3:1-7; Tt. 1:5-9)

  2. O ensino da sã doutrina para que possa ser reproduzida pelos aprendizes no ensino e correção de outros. (2Tm. 2:2; Tt. 1:9)

  3. Avanços na prática do ministério pastoral sob a orientação de presbíteros mais experientes, com foco na pureza da vida e da doutrina ao longo do processo (1Tm. 4:11-16; 1Pe. 5:1-4)

Uma história completa de formação pastoral está além do escopo deste artigo, mas o breve resumo mostra a igreja primitiva engajando-se em práticas de formação pastoral muito alinhadas com os padrões baseados na igreja do Novo Testamento. A educação do seminário ou mesmo a educação teológica formal (além das doutrinas essenciais que todos os catecúmenos eram obrigados a aprender) não eram um pré-requisito para o cargo pastoral até perto da época da Reforma Protestante, embora os pastores se envolvessem em educação teológica contínua em uma variedade de contextos.

Embora longe de fornecer um modelo de tamanho único, sugiro que este olhar histórico nos encoraje ainda mais a fundamentar a formação pastoral na igreja local, enquanto ainda aproveita de uma variedade de contextos e oportunidades para o estudo teológico e bíblico antes e durante o ministério.

Instituições extra-eclesiásticas podem ser maravilhosamente utilizadas por Deus, mesmo na vida dos pastores, mas não são essenciais para a tarefa de formação pastoral.

Além disso, as melhores concepções da formação pastoral baseada na igreja não devem se ver como anti-acadêmicas, mas como ambientes onde os homens crescem em sua perspicácia teológica e bíblica, mesmo quando se envolvem em ministérios práticos.

[1]González, Justo L. The History of theological education.Nashville: Abingdon, 2015 (p 117).

[2]Cyprian, Epistle 29 quoted in González, Justo L. The History of Theological Education.Nashville: Abingdon, 2015 (P 5).


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